Sam...
Via os olhos da garota de dentro do espelho encherem de lágrimas. Podia sentir seus medos, e seus traumas. Ouvia as vozes que lhe diziam que já não devia mais comportar-se como criança. A dor era oculta, e ela mesma não conseguia explicar o que estava acontecendo. Os seus gritos eram em silêncio, seus desejos eram contidos, seus sonhos já não conseguia traduzir.

Gostaria de ter certeza das coisas que deveria fazer, das decisões que poderia tomar. Sonhava todas as noites com um Anjo vestido de branco coberto por uma luz também branca que enchia o seu quarto de luz. Ele (o Anjo) segurava a mão dela, confortava-a. Ela ouvia o silêncio dele que lhe dizia; "paciência moça, paciência, tá tudo bem, tá tudo bem, vai ficar tudo bem". E ela acreditava no Anjo, ela queria acreditar, e acreditava mesmo. Com o seu coração, com suas forças e até mesmo com seu cérebro. Por que não com o cérebro?

[...]

A moça gosta de dançar, gosta de sorrir alto, desses sorrisos que a gente precisa mover todos os músculos do rosto e mostrar a gengiva e todos os dentes da boca. Ela gosta de dançar; ela ouve música eletrônica num quarto em silêncio como quem se esforça para enxergar além das linhas azul e rosa do horizonte. Ela costuma andar solitária pelas ruas (sem esquinas) como se estivesse a procura de algo que ela mesma não sabe o que é.

Ela se suja com comidas; doces, sorvetes, chocolates, algodão doce ( o preferido!). Ela sente nojo de suor, de injustiças e crueldades e costuma desviar o olhar para o chão, como quem procura uma saída e não encontra.

Ela tem juventude fresca na pele, sonhos de criança e olhar de mulher que exala vontade e desejo.
Sam...


...Sabe que o meu gostar por você chegou a ser amor pois eu me comovia vendo você pois se eu acordava no meio da noite só pra ver você dormindo, meu Deus como você me doía "vezenquando". Eu vou ficar esperando você numa tarde cinzenta de inverno bem no meio duma praça, então os meus braços não vão ser suficientes para abraçar você e a minha voz vai querer dizer tanta, mas tanta coisa que eu vou ficar calada um tempo enorme só olhando você sem dizer nada só olhando... olhando pensando: meu Deus ah meu deus como você me dói "vezenquando"

(Caio Fernando de Abreu - Harriet)
Sam...

Que te amo, que te esperarei um dia na rodoviária, num aeroporto, que te acredito, que consegues mexer dentro-dentro de mim? É tão pouco. Não te preocupa. O que acontece é sempre natural - se a gente tiver que se encontrar, aqui ou na China, a gente se encontra. Penso em você principalmente como minha possibilidade de paz - a única que pintou até agora, “nesta minha vida de retinas fatigadas”. E te espero. E te curto todos os dias.
E te gosto muito. Muito.
[Caio Fernando Abreu]



Como chegar para alguém e dizer de repente “eu te amo” para depois explicar que esse amor independia de qualquer solicitação, que lhe basta amar, como uma coisa que só por ser sentida e formulada se completa e se cumpre? Pois se ninguém aceitaria ser objeto de amor sem exigências.




Se não for hoje, um dia será. Algumas coisas, por mais impossíveis e malucas que pareçam, a gente sabe, bem no fundo, que foram feitas pra um dia dar certo. Acredite!


Sam...

"E eu tenho vontade se segurar seu rosto e ordenar que você seja esperto e jamais me perca e seja feliz. E que entenda que temos tudo o que duas pessoas precisam para ser feliz: a gente dá muitas risadas juntos. A gente admira o outro desde o dedinho do pé até onde cada um chegou sozinho. A gente acha que o mundo está maluco e sonha com sonos jamais despertados antes do meio-dia. A gente tem certeza de que nenhum perfume do mundo é melhor do que a nuca do outro no final do dia. A gente se reconheceu de longa data quando se viu pela primeira vez na vida."





Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza. Descobri que não sou disciplinada por virtude, e sim como reação contra a minha negligência; que pareço generosa para encobrir minha mesquinhez, que me faço passar por prudente quando na verdade sou desconfiada e sempre penso o pior, que sou conciliadora para não sucumbir ás minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que ninguém saiba como pouco me importa o tempo alheio. Descobri, enfim, que o amor não é um estado de alma e sim um signo do zodíaco.
[...]

Sam...
 E te cuida, por favor, te cuida bem. Eu posso pelo menos ouvir. Não leve a mal alguma dureza dita. É porque te quero claro.
[Caio Fernando Abreu]


''A gente sai de casa para ir numa festa ou para pegar a estrada, e antes que a porta atrás de nós se feche, ouvimos a voz deles, pai e mãe: cuida-te. A recomendação sai no automático: tchau, te cuida. Um lembrete amoroso: cuida-te, meu filho. A vida anda violenta, mas a gente não dá a mínima para este "te cuida" que a gente ouve desde o primeiro passeio do colégio, desde o primeiro banho de piscina na casa de amigos, desde a primeira vez que saímos a pé sozinhos. Pai e mãe são os reis do "te cuida", e a gente mal registra, tão acostumados estamos com estes que não fazem outra coisa a não ser querer nosso bem e nos amar para todo sempre, amém.

No entanto, lembro-me da primeira vez em que estava apaixonada, me despedindo dentro do carro, entre beijos mais do que bons, com aquele que devia ser um moleque, mas para mim era um homem, e um homem estranho, uma vez que não era pai, irmão, primo, amigo ou colega. Depois do último beijo, abri a porta do carro e, antes de sair, o ouvi dizer com uma voz grave e sedutora: cuida-te.

Cuidar-me-ei, pode deixar. Cuidar-me-ei para estar inteira amanhã de novo, para te ver de novo, te beijar de novo. Cuidar-me-ei para me tocares com suavidade, para nunca encontrares um arranhão sobre a minha pele. E cuidarei do meu humor, dos meus cabelos, cuidarei para não perder a hora, cuidarei para não me apaixonar por outro, cuidarei para não te esquecer, vou me cuidar.

Cuidar-me-ei ao atravessar a rua, me cuidarei para não pegar um resfriado, me cuidarei para não ficar doente. Cuidar-me-ei, meu amor, enquanto estiver longe dos teus olhos, nos momentos em que você não pode cuidar de mim.

Fica a meu encargo voltar pra você do mesmo jeito que você me viu hoje. É de minha responsabilidade não ficar triste, não deixar ninguém me magoar, não deixar que nada de ruim me aconteça porque você me ama e não aguentaria. Claro que me cuido, nem precisava pedir.

Cuida-te, dissera ele. E eu ouvi como se fosse um te amo.

Meses depois, terminado o namoro sem beijos de despedida, saio do carro trancando o choro, ainda que o rompimento tenha sido resolvido de comum acordo. Abro a porta e já estou com uma perna pra fora quando ouço, sem nenhuma aflição por mim, apenas consciência de que não teríamos mais notícias um do outro: cuida-te. Cuidei-me. Só chorei quando já estava dentro do elevador. ''
[Marta Medeiros]
Sam...


"Dizem que o amor se faz de uma comunidade de interesses subterrâneos, restos de vozes, hábitos que nos ficam da infância como uma melodia sem letra, paixões pisadas na massa funda do tempo, mas nesses anos entre guerras, os sentimentos explicados não interessavam a ninguém. O amor era então uma criação fulminante do tédio e da inocência, feito do carnal recorte da beleza, magnífico de crueldade. 
Amei-te de repente, com a luminosa injustiça que me afastou de todos os que me amaram por me serem semelhantes."
[Inês Pedrosa]
Sam...
- No fim destes dias encontrar você que me sorri, que me abre os braços, que me abençoa e passa a mão na minha cara marcada, na minha cabeça confusa, que me olha no olho e me permite mergulhar no fundo quente da curva do teu ombro. Mergulho no cheiro que não defino, você me embala dentro dos seus braços e você me beija e você me aperta e você me aquieta repetindo que está tudo bem, tudo, tudo bem.



Você não sabe a saudade que eu senti todo esse tempo..
[Sam]
Sam...

O coração bate tresloucadamente, as mãos suam nervos a flor da pele e aquela incerteza latente: Dizer ou não dizer? E se não lembrar de mim? E se simplesmente me ignorar??? O que fazer...
Coração retumbando dentro do peito, ansiedade pura, pulsação como se tivesse acabado de correr uma maratona... E então ela decide: Vou dizer e seja o que Deus quiser!
Levanta de sua mesa de trabalho, artolada de processos complicadíssimos que destrincha com a maior facilidade e o medo se apodera dela...Não vou desistir, hoje eu vou ligar e dizer... Seus dedos tremulam ao digitar os números, código da operadora, 2 números, código da área,+ 2, número do telefone,+ 08 , são doze intermináveis números que ela digita durante os quais ela simplesmente não raciocina para não desistir.
Números discados, telefone chamando, toca uma, duas, três, ela já até está querendo desligar pensando “viu, não vai atender, a culpa não foi minha”! Quando ouve um alô do outro lado, daquela voz tão conhecida, jamais esquecida, apesar do tempo passado, ela tira uma força que não sabia que possuía e começa a falar...Primeiro coisas triviais, “ como tu estás, e o trabalho, saúde?” e todo aquele papo educado que aprendemos a ter, como dizem os franceses “come il faut”... Perguntas que vão, respostas que vêm, questões respondidas e o tempo passando e ela pensando: “ eu não vou conseguir...” Mas ela é uma mulher determinada, que aprendeu a lidar melhor com suas emoções e que acha extremamente injusto esconder seus sentimentos dos outros e de si própria...
Então menciona: “isto não têm nada a ver com você, eu é que preciso te dizer isso...” respira fundo e solta o verbo, com uma coragem que vem das entranhas: “tu não sabes como eu te amei naquela época...”, ela nunca havia dito isso com todas as palavras: EU TE AMO! Apesar das atitudes indicaram, os olhos falarem, mas a boca era reprimida... Não conseguia dizer durante todos os momentos apaixonados e maravilhosos vividos, essas palavras mágicas... Ela ainda era uma menina-mulher, confusa, apaixonada... e achava que não dizendo isso, deixava de entregar o que já havia sido entregue a muito tempo: sua alma, seu coração e seu corpo... Quanta bobagem... Só o tempo e a experiência a deixaram ver isso... Vitória! Ela disse! Conseguiu! Está em paz com sua consciência. Disse a quem  nunca  havia dito que o amava, apesar de um atraso, mas isso é detalhe! Ela deixou de dizer, ele deixou de ouvir, será que mudaria algo??? Agora isso não interessa... Ele pareceu um pouco perturbado e diz que ficou emocionado... Retribui com o velho jargão “eu também gostei muito de ti”...
Ela não acredita que cumpriu a missão que tinha estabelecido para si mesma, então se despede: “um beijo para ti” e desliga.
Volta para sua sala, senta em sua mesa, em frente ao seu computador, como se nada tivesse acontecido! Tudo parece igual, seus colegas sérios trabalhando, os processos se avolumando e ela tenta se concentrar, seus olhos enchem de lágrimas, ela havia vencido mais uma batalha! Ela era uma mulher de verdade que não esconde o que sentiu, sente e sentirá! Cresceu e amadureceu!
Parabeniza-se mentalmente e pensa: “a liberdade felicidade é azul!”.




O amor não se define; sente-se.
[Sam]
Sam...

Eles Não tinham uma música, um lugar, uma cor. Ele odiava quando ela ria de suas crises e sempre o corrigia. Ela sentia vontade de jogá-lo de um abismo toda vez que ele fazia piada sobre a roupa dela, sua voz gritante. Eles se beijavam toda vez que ele ia embora.
Havia uma trégua entre a batalha costumeira e a pegação em massa. Ele, vencido pela pirraça, passava o braço pela cintura dela e respirava em sua nuca. Ela, vitoriosa, enroscava seus dedos nos deles sorriam, escondidos. Eles ficavam em silencio, um misto de preguiça e deleite. Era mais um daqueles momentos que não precisavam de palavras...
Era um ritual interessante. Ela beijava os cantos do rosto dele, provocando sua boca, desviando, feito uma menininha melindrosa. Ele apoiava o queixo em seu ombro e o acariciava com a ponta do nariz. Até que a batalha acabava, os lábios se encontravam e, por um instante, não havia jogos. Eles se transformavam, pareciam quase se completar. Era assustador..
Ele oferecia seu peito pra ela, ela ouvia cada batida de seu coração e isso parecia intimo demais pra eles. Fácil era beijar seu pescoço, arrancar sua blusa e deixá-lo louco. Difícil era aguentar ouvir seu coração bater sem querer ser o motivo de cada batida. Quando ele ficava em silencio e olhava pra ela desarmado, ela também quase se desarmava. Quase! Respirava fundo e virava o rosto, desejando que ele voltasse a olhar a TV.E que ela pudesse lamentar baixinho sua covardia..
Deus, como ela desejava ter tido a coragem! Coragem de dizer que sim, em algum momento, ela o amou. Amou desesperadamente, desejando o "pra sempre" de qualquer conto de fadas bobo. E, mesmo que a ideia de amá-lo começou a parecer ridícula, ela queria ter tido a coragem de dizer que ele poderia tê-la feito se apaixonar. Ou fez, como ela não conseguia perceber. E eles poderiam bancar os dois idiotas se amando, se superando.
Já era tarde, ela estava ficando com sono. E os delírios de "como poderia ter sido" estavam indo longe demais. Ela queria fechar os olhos e pensar em outra coisa, mas não conseguia. Sonhava com ele, sentia seu cheiro, revivia cada gesto, cada gosto.
Gostava de sentir uma coisa estranha no estômago quando olhava pra ele. Gostava quando ele enrolava os dedos em seus cabelos e apertava sua nuca. Ela gostava dele e ponto. Só não queria que ele soubesse disso...
Sam...
As coisas não são tiradas de vc, alguém te livra delas...

[Adaptação minha feita de uma frase de Caio Fernando Abreu]


Hoje eu consigo entender. Aceitar. E agradecer. Afinal. A vida se escreve certo, apesar de sermos linhas tortas e apesar dos anos esmurrando ponta de faca cega.


♪ Um belo dia resolvi mudar
E fazer tudo que eu quero fazer
Me libertei daquela vida vulgar
Que eu levava estando junto a você♫

Rita Lee - Agora só falta vc
Sam...
Quando o amor vos chamar, segui-o,
Embora seus caminhos sejam agrestes e escarpados;
E quando ele vos envolver com suas asas, cedei-lhe,
Embora a espada oculta na sua plumagem possa ferir-vos;
E quando ele vos falar, acreditai nele,
Embora sua voz possa despedaçar vossos sonhos
Como o vento devasta o jardim.
Pois, da mesma forma que o amor vos coroa,
Assim ele vos crucifica.

[Khalil Gibran Khalil]


Não preciso dizer mais nada

[...]



Sam...
Todos os amores deveriam ser possíveis. Pessoas não deveriam chegar, nem antes, nem depois. Tudo deveria ser exatidão, pontualidade vital para que o amor aconteça. A terra deveria girar com esse único propósito: o encontro das almas. O resto seria resto e tudo seria para sempre. Brilhar para sempre, brilhar como um farol. Brilhar com brilho eterno.
[Vladimir Maiakóvski]

Quando eu finalmente estou desacreditada de tudo... eu encontro uma pasta qualquer essa imagem esquecida no meu computador. Não lembro de que site tirei ou o que dizia a legenda... só lembro que no tempo que salvei a foto, eu acreditava em muita coisa... Pois é Maiakóvski, os amores deveriam mesmo ser coerentes (para começar)... e um aviso deveria vir junto com a herança genética humana: “é preciso tomar cuidado com amores”.
Frustação? Talvez. Talvez seja só loucura. O Caio Fernando diria que: “Tudo isso, subitamente parece tão absurdo e patético e insano e monótono e falso e, sobretudo tristíssimo”.
[Sam]
Sam...

Eu queria te dizer uma porção de coisas, de uma porção de noites, ou tardes, ou manhãs, não importa a cor, é, a cor, o tempo é só uma questão de cor não é? Por isso não importa, eu queria era te dizer dessas vezes em que eu te deixava e depois saía sozinho, pensando também nas coisas que eu não ia te dizer, porque existem coisas terríveis, eu me perguntava se você era capaz de ouvir, sim, era preciso estar disponível para ouvi-las, disponível em relação a quê? Não sei não me interrompa agora que estou quase conseguindo, disponível só, não é uma palavra bonita? Sabe, eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você ou apenas aquilo que eu queria ver em você, eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e se era assim, até quando eu conseguiria ver em você todas essas coisas que me fascinavam e que no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas, e pensava que amar era só conseguir ver, e desamar era não mais conseguir ver, entende? Dolorido-colorido, estou repetindo devagar para que você possa compreender, melhor, claro que eu dou um cigarro pra você, não, ainda não, faltam uns cinco minutos, eu sei que não devia fumar tanto, é eu sei que os meus dentes estão ficando escuros, e essa tosse intolerável, você acha mesmo a minha tosse intolerável? Eu estava dizendo, o que é mesmo que eu estava dizendo? Ah: sabe, entre duas pessoas essas coisas sempre devem ser ditas, o fato de você achar minha tosse intolerável, por exemplo, eu poderia me aprofundar nisso e concluir que você não gosta de mim o suficiente, porque se você gostasse, gostaria também da minha tosse, dos meus dentes escuros, mas não aprofundando não concluo nada, fico só querendo te dizer de como eu te esperava quando a gente marcava qualquer coisa, de como eu olhava o relógio e andava de lá pra cá sem pensar definidamente e nada, mas não, não é isso, eu ainda queria chegar mais perto daquilo que está lá no centro e que um dia destes eu descobri existindo, porque eu nem supunha que existisse, acho que foi o fato de você partir que me fez descobrir tantas coisas, espera um pouco, eu vou te dizer de todas as coisas, é por isso que estou falando, fecha a revista, por favor, olha, se você não prestar muita atenção você não vai conseguir entender nada, sei, sei, eu também gosto muito do Peter Fonda, mas isso agora não tem nenhuma importância, é fundamental que você escute todas as palavras, todas, e não fique tentando descobrir sentidos ocultos por trás do que estou dizendo, sim, eu reconheço que muitas vezes falei por metáforas, e que é chatíssimo falar por metáforas, pelo menos para quem ouve, e depois, você sabe, eu sempre tive essa preocupação idiota de dizer apenas coisas que não ferissem...

[Caio Fernando Abreu]


Para onde foi?
Meus olhos estrangeiro não se reconhecem.
A trama... onde está a trama?
De onde eu vim ficou a distância. Depois de tudo que deixei ainda carrego as lembranças.
A minha frente segue a estrada que me leva.
Enquanto o horizonte me explica o final de todas as coisas eternas que tentei guardar dentro de mim.
E a consciência de que o mundo se move.
Minha boca se fecha, muda...
Só darão por existência nas linhas escritas do papel.

[Sam]
Sam...
É cuidar do jardim para que elas venham até você...




É bem verdade que eu tentei, me esforcei e quiz fazer tudo certo, mas, o mundo, esse velho mundo, é dos espertos. Dos que pensam que sabem e agem na fulgacidade de valores pequenos. Pessoas como eu, são atemporais, vivem além dos outros, guardados na mente, simplesmente por terem sido espertas de outro modo: Na singularidade de um sorriso, na sutileza de uma palavra, na força de um olhar, na proximidade de um abraço. Tenho a total certeza que em meio ao vago que se encontra o mundo, estou cheia, mas, não farta. Em meu peito cabe ainda de tudo um pouco, do amor a amizade, da família aos amores, porque, eu sei como tratá-los e como agir com cada um, a vida me ensinou e eu prezo isso.
Digamos que estou bem, muito bem.
Noite na praia com amigos queridos, prosseco, lua e mar.
Precisa-se de mais algo?
Sam...
E foi então que apareceu a raposa:
- Bom dia, disse a raposa.
- Bom dia, respondeu polidamente o principezinho que se voltou mas não viu nada.
- Eu estou aqui, disse a voz, debaixo da macieira...
- Quem és tu? perguntou o principezinho. Tu és bem bonita.
- Sou uma raposa, disse a raposa.
- Vem brincar comigo, propôs o príncipe, estou tão triste...
- Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. Não me cativaram ainda.
- Ah! Desculpa, disse o principezinho.
Após uma reflexão, acrescentou:
- O que quer dizer cativar ?
- Tu não és daqui, disse a raposa. Que procuras?
- Procuro amigos, disse. Que quer dizer cativar?
- É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa criar laços...
- Criar laços?
- Exatamente, disse a raposa. Tu não és para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens necessidade de mim. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás pra mim o único no mundo. E eu serei para ti a única no mundo...
Mas a raposa voltou a sua idéia:
- Minha vida é monótona. E por isso eu me aborreço um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei o barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros me fazem entrar debaixo da terra. O teu me chamará para fora como música. E depois, olha! Vês, lá longe, o campo de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelo cor de ouro. E então serás maravilhoso quando me tiverdes cativado. O trigo que é dourado fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento do trigo...
A raposa então calou-se e considerou muito tempo o príncipe:
- Por favor, cativa-me! Disse ela.
- Bem quisera, disse o príncipe, mas eu não tenho tempo. Tenho amigos a descobrir e mundos a conhecer.
- A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não têm tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres uma amiga, cativa-me! Os homens esqueceram a verdade, disse a raposa. Mas tu não a deves esquecer. “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”.




Eu não preciso de ti.
Tu não precisas de mim.
Mas... se tu me cativares, e se eu te cativar...
Ambos precisaremos, um do outro. E este precisar será eternamente até que ambos não queiram mais se cativar.
[Sam]

Sam...


“- Você poderia me dizer, por favor, qual aminho devo seguir a partir daqui? Perguntou Alice.
_Isso depende muito para onde você quer ir, respondeu o Gato de Cheshire.
_Não me importo muito para onde..., retrucou Alice.
_Então não importa o caminho que você escolha, disse o Gato.
_... contando que dê em algum lugar, Alice completou.
_Oh, você pode ter certeza que vai chegar, disse o Gato, se você caminhar bastante.
Sam...
"Millôr diz que viver é desenhar sem borracha. Diz também que é como atravessar uma chuva de tijolos: agente escapa da maioria deles, mas às vezes um acerta um ombro, às vezes pega meio de lado, às vezes parte um joelho. As marcas das tijoladas vão se acumulando, dentro e fora, até aquele tijolo que acerta em cheio. Gosto dessa metáfora. Acredito em tijolos, e acredito em cacos de tijolo, nas sobras de um tijolo específico destinado a determinado passante que, sem propósito ou querer, acerta os outros à sua volta, aquilo que em linguagem de guerra os angloparlantes chamam de collateral damage. Não estou simpatizando com 2011. A quantidade de tijolos está acima do suportável.


Uma velha de 20 anos me estreita no espelho. Os traços cansados. O sono adiado, Os olhos saudosos. Não saem com água. O café amargo escorre grosso pela minha garganta arranhada. Na TV mais um assassinato ao vivo. Os cadáveres se espalham. Na pauta, a imprensa mostra a tragédia da guerra. Só não estava na pauta que a guerra registrasse a tragédia da imprensa. Olho para a monotonia da manhã quente. Mudo de canal. Outro jornal que inunda a sala de sangue. Mais um canal. Um pastor exorciza aos berros. Dois canais depois ensinam a fazer comida. Ensinam a fazer comida de um país onde nem todos têm arroz e feijão todos os dias, porque a bolsa família não dá pro mês inteiro e o salário é tão mínimo que maximiza a miséria. Os mísseis da indiferença matam toda a esperança. Escola da Palestina explodem em milhares de pedaços humanos e inocentes. Escolas brasileiras explodem de mediocridade em milhares de pedaços culpados. Isso não passa na TV. Só se fala em uma nação forte. Essa nação não passa de um retângulo de pano verde e amarelo e uma canção bonita de quatro e quatro anos. Acabou-se a luta de classe. A história morreu. Dia a dia avaliam o valor dos homens segundo a “objetividade impalpável do trabalho abstrato”.
Lentamente o coração do sol parou de bater. A noite avança. Na cidade toda noite meus olhos vão dormir saudosos das estrelas. Estou cansada. Então me arrasto para cama como um cadáver, me envolvo em saco plástico desenhado de estrelas.

[Sam]
Sam...
Odeio carnaval, acho que a época do ano em que toda a espécie de mau-gosto é incentivada...