Sam...
"Millôr diz que viver é desenhar sem borracha. Diz também que é como atravessar uma chuva de tijolos: agente escapa da maioria deles, mas às vezes um acerta um ombro, às vezes pega meio de lado, às vezes parte um joelho. As marcas das tijoladas vão se acumulando, dentro e fora, até aquele tijolo que acerta em cheio. Gosto dessa metáfora. Acredito em tijolos, e acredito em cacos de tijolo, nas sobras de um tijolo específico destinado a determinado passante que, sem propósito ou querer, acerta os outros à sua volta, aquilo que em linguagem de guerra os angloparlantes chamam de collateral damage. Não estou simpatizando com 2011. A quantidade de tijolos está acima do suportável.


Uma velha de 20 anos me estreita no espelho. Os traços cansados. O sono adiado, Os olhos saudosos. Não saem com água. O café amargo escorre grosso pela minha garganta arranhada. Na TV mais um assassinato ao vivo. Os cadáveres se espalham. Na pauta, a imprensa mostra a tragédia da guerra. Só não estava na pauta que a guerra registrasse a tragédia da imprensa. Olho para a monotonia da manhã quente. Mudo de canal. Outro jornal que inunda a sala de sangue. Mais um canal. Um pastor exorciza aos berros. Dois canais depois ensinam a fazer comida. Ensinam a fazer comida de um país onde nem todos têm arroz e feijão todos os dias, porque a bolsa família não dá pro mês inteiro e o salário é tão mínimo que maximiza a miséria. Os mísseis da indiferença matam toda a esperança. Escola da Palestina explodem em milhares de pedaços humanos e inocentes. Escolas brasileiras explodem de mediocridade em milhares de pedaços culpados. Isso não passa na TV. Só se fala em uma nação forte. Essa nação não passa de um retângulo de pano verde e amarelo e uma canção bonita de quatro e quatro anos. Acabou-se a luta de classe. A história morreu. Dia a dia avaliam o valor dos homens segundo a “objetividade impalpável do trabalho abstrato”.
Lentamente o coração do sol parou de bater. A noite avança. Na cidade toda noite meus olhos vão dormir saudosos das estrelas. Estou cansada. Então me arrasto para cama como um cadáver, me envolvo em saco plástico desenhado de estrelas.

[Sam]
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