Sam...
 E te cuida, por favor, te cuida bem. Eu posso pelo menos ouvir. Não leve a mal alguma dureza dita. É porque te quero claro.
[Caio Fernando Abreu]


''A gente sai de casa para ir numa festa ou para pegar a estrada, e antes que a porta atrás de nós se feche, ouvimos a voz deles, pai e mãe: cuida-te. A recomendação sai no automático: tchau, te cuida. Um lembrete amoroso: cuida-te, meu filho. A vida anda violenta, mas a gente não dá a mínima para este "te cuida" que a gente ouve desde o primeiro passeio do colégio, desde o primeiro banho de piscina na casa de amigos, desde a primeira vez que saímos a pé sozinhos. Pai e mãe são os reis do "te cuida", e a gente mal registra, tão acostumados estamos com estes que não fazem outra coisa a não ser querer nosso bem e nos amar para todo sempre, amém.

No entanto, lembro-me da primeira vez em que estava apaixonada, me despedindo dentro do carro, entre beijos mais do que bons, com aquele que devia ser um moleque, mas para mim era um homem, e um homem estranho, uma vez que não era pai, irmão, primo, amigo ou colega. Depois do último beijo, abri a porta do carro e, antes de sair, o ouvi dizer com uma voz grave e sedutora: cuida-te.

Cuidar-me-ei, pode deixar. Cuidar-me-ei para estar inteira amanhã de novo, para te ver de novo, te beijar de novo. Cuidar-me-ei para me tocares com suavidade, para nunca encontrares um arranhão sobre a minha pele. E cuidarei do meu humor, dos meus cabelos, cuidarei para não perder a hora, cuidarei para não me apaixonar por outro, cuidarei para não te esquecer, vou me cuidar.

Cuidar-me-ei ao atravessar a rua, me cuidarei para não pegar um resfriado, me cuidarei para não ficar doente. Cuidar-me-ei, meu amor, enquanto estiver longe dos teus olhos, nos momentos em que você não pode cuidar de mim.

Fica a meu encargo voltar pra você do mesmo jeito que você me viu hoje. É de minha responsabilidade não ficar triste, não deixar ninguém me magoar, não deixar que nada de ruim me aconteça porque você me ama e não aguentaria. Claro que me cuido, nem precisava pedir.

Cuida-te, dissera ele. E eu ouvi como se fosse um te amo.

Meses depois, terminado o namoro sem beijos de despedida, saio do carro trancando o choro, ainda que o rompimento tenha sido resolvido de comum acordo. Abro a porta e já estou com uma perna pra fora quando ouço, sem nenhuma aflição por mim, apenas consciência de que não teríamos mais notícias um do outro: cuida-te. Cuidei-me. Só chorei quando já estava dentro do elevador. ''
[Marta Medeiros]
0 Responses

Postar um comentário